Aversão a versões

Dezembro chegando! Época de John Lennon se revirar no túmulo ouvindo “Então é Natal”..., com Simone. A cantora, há alguns anos, também protagonizou – junto com Zélia Duncan - outra versão de música nada agradável: “Então me diz”, música-tema dos pombinhos da novela Belíssima, versão de The Blower’s Daughter, do irlandês Damien Rice, trilha sonora do filme Closer. Simone é reincidente...

Cantores brasileiros usam e abusam de versões de músicas estrangeiras. Mas não é uma exclusividade nossa. Que o diga “don’t cry for me, Argentina”... Penso que versões de sucessos internacionais podem contribuir para a própria divulgação da música original. Tom Jobim nunca reclamou das versões que fizeram de suas músicas. Aliás, como reclamar de Frank Sinatra cantando “The Girl from Ipanema”? Outro sucesso de Jobim, Insensatez, ficou belíssima in English.

Mas há abusos, claro. Obviamente que os abusos também dividem opiniões. Admiro Kiko Zambianchi, mas que pecado o que ele fez com “Hey Jude”... E o que dizer de Zé Ramalho, que também admiro, cantando “bate, bate, bate na porta do céu”? Argh!!! Coitados dos Beatles e de Bob Dylan.

É, mas o mesmo Bob Dylan teve versões muito boas para músicas suas em nossa língua pátria. Caetano Veloso fez “Negro Gato”, a partir de um sucesso de Dylan, muito bem gravada pelo mineiro Zé Geraldo. Outra gravação mineira, desta vez do Skank, louvou o clássico “I want you”, também de Dylan. E os Beatles foram honrados por Lulu Santos com “Lá vem o sol”.

Há versões que caíram tanto na graça do povo que ninguém mais se lembra de serem versões: “Venenosa, êh, êh, êh, êh, êh, erva venenosa, êh, êh, êh, êh, êh, é pior do que cobra cascavel, seu veneno é cruel, el, el, el”. Para quem não sabe, é versão de Poison Ivy, gravada por Rolling Stones lá nos anos 60.

Cantores da Jovem Guarda ou dos primeiros anos do rock brasileiro foram geniais em versões, embora tenham cometido excessos. Como não gostar de “era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones”? Aliás, gravada duas vezes na versão tupiniquim, em duas épocas diferentes, e em ambas fazendo sucesso. É versão de música do italiano Gianni Morandi.

Algumas versões são idolatradas: “Esta canção não é mais que mais uma canção. Quem dera fosse uma declaração de amor”, versão de música de Pablo Milanês, gravada por Chico Buarque. Ou, também gravada por Chico, “Minha história”, versão de “Gesubambino”, música de Dalla Pallotino: “Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar / eu só sei que falava e cheirava e gostava do mar”.

Mas, não faz muito tempo, ouvi uma dupla cantando esgarniçada uma versão de Simon and Garfunkel: “The sound of silence”. Juro que doeu. Ao contrário de ouvir o grupo Ira!, gravando a banda roqueira The Clash e gerando “Pra ficar comigo”.

Enfim, fazer versões é coisa que começa lá na infância, quando tentamos traduzir letras das músicas que mais gostamos. E, ao arranhar algum violão, logo buscamos cantar em nossa língua, forçando uma rima aqui e outra ali. É legal brincar com isso. Outro dia, ouvindo um sucesso antigo de Litle Richard - “Long tall Sally”, percebi: conheço essa música de outra forma. E logo lembrei: meu primeiro contato com o sucesso foi através de uma versão, em português, gravada nos anos 70, e que ajudou a animar festinhas lá de casa. Enfim, legal versões de músicas, nem que seja para falarmos mal delas.

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