Política bisonha

Tenho muita preguiça de quem tem preguiça de discutir política. Principalmente em dias como este domingo, em que – ancoradas em nosso silêncio e nossa resignação – pessoas bisonhas foram eleitas para fazer rir indivíduos, empresas e organizações que os apoiam.

Sim, em última instância, somos nós os responsáveis por eleger os bisonhos supracitados. Seja por ter votado neles (reproduzindo o que terceiros disseram sem a devida análise de quem são, o que defendem e com quem estão), não votado mas também não tentado, ao menos, pautar a discussão sobre eles (quando temos certeza de que não farão um bom governo ou uma boa representação) ou , pior: não ter se interessado em saber o que faz um prefeito ou um vereador – ou se as opções que estão aí cumprem esse papel.

Muita gente simplesmente repete mantras que lê na internet, ouve em bares ou vê na igreja e não para para pensar se concorda ou não realmente com aquilo. É um Fla-Flu, um nós contra eles cego, que utiliza técnica de desumanização, tornando o outro uma coisa sem sentimentos. Isso é muito útil durante eleições polarizadas, mas péssimo para o cotidiano.

Somos seres complexos com múltiplos níveis de relações. Tenho colegas conservadores politicamente, mas liberais em comportamento que guardo em muito mais estima do que colegas progressistas politicamente, mas com um discurso e prática comportamentais tacanhos. Afinal de contas, não é possível defender a liberdade dos povos e transbordar machismo, tratando a companheira como uma serva em casa.

É mais fácil pensar de forma contrária, preto no branco, os de lá, os de cá. Mas, dessa forma, a vida vai ficando mais pobre. Sem o direito ao convívio diário com aqueles que pensam de forma diferente, estancamos em nossas posições, paramos de evoluir como humanidade. Do outro lado sempre estará um monstro e do lado de cá os santos. Isso sem contar a impossibilidade de apreciar tudo o que o outro tem de melhor – do ombro amigo à conversa inflamada em uma mesa de bar.

Neste domingo e para o segundo turno, sugiro que busquem a tolerância no diálogo, mesmo que firme e duro, e ao questionarem o outro sobre as razões que o levam a determinada escolha, não tenha medo de colocar à prova a sua própria opção. Que se for forte o bastante, resistirá ao contato com outra idéia. Nossa natureza não é de certezas, mas de dúvidas e falhas que só conseguem ser melhor percebidas nesse contato.

Por fim, quem rompe a barreira do conformismo e tenta debater política – independentemente do seu posicionamento – é taxado como chato, babaca ou subversivo. Ou seja, um mala sem alça que não entende que a cidade é um organismo autônomo que lhe presta um favor por deixar nela viver.

O fato é que nós não nos sentimos donos da cidade em que vivemos. Acreditamos que somos ocupantes provisórios. Caso tivéssemos essa necessária sensação de pertencimento, participaríamos realmente da vida e perceberíamos o quão importante são dias como hoje em que decisões para os próximos quatro anos serão tomadas. (Sakamoto)

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