Discursos secos e empoeirados que vive boa parte de nossa política municipal.

Queria fazer uma proposta: trocar a data das eleições municipais para o começo de cada ano, quando as chuvas são mais frequentes. Dessa forma, os eleitores vão se lembrar que a cidade deles se transforma, anualmente, em uma tigela de lama, água ou esgoto.

Desgraça é desgraça, descaso é descaso. Desgraças acontecem, mas parte delas poderia ser prevenida, planejada, antecipada, informada, discutida
, pitacada, pois não são novidade. Nesses casos, o que é tragédia vira descaso e pode, inclusive, ser alvo de responsabilização judicial. Ou, ao menos, eleitoral. Se a nossa cidadania fosse exercida de fato.

Deixe a preguiça de cidadão de lado e pergunte ao seu candidato o que o programa de governo dele diz a respeito do assunto. Se ele começar com “veja bem, meu caro, você deve considerar…”, “aqui na cidade de…”, “temos que considerar uma série de elementos”, “essa é uma boa pergunta…”, essas muletas de discurso para dar tempo de pensar em uma resposta minimamente convincente, desconfie. A verdade é que parte deles não está preparado para responder.

Também não vote em partido de político que dá declaração idiota. “Precisamos de mais um mandato para fazer as obras necessárias”, “choveu mais do que o esperado de novo” e, o melhor de todos, ”não podemos controlar a vontade divina”. Claro que não porque, se houvesse um ser onipotente e onisciente fazendo valer sua vontade por aqui, certamente esse prefeito em questão não teria sido eleito.

Ocupação irregular, planejamento, plano diretor, reforma urbana são expressões ouvidas apenas no tempo úmido e não fazem sucesso durante as eleições. Na seca, evaporam do léxico não só dos mandatários, mas também de pobres e ricos, que continuam construindo, desmatando e poluindo. Suas razões são diferentes, mas o efeito é o mesmo. Vale lembrar que tudo isso dito aí em cima não gera um voto, pelo contrário: quem é o doador que vai ficar feliz por ter a construção de sua casa em uma área de preservação ambiental embargada?

Como já disse aqui, considerando que quando há uma necessidade urbana os mais pobres são rapidamente expulsos do lugar onde estavam para um lugar perto da esquina entre o “não me encha o saco” com o “não me importa aonde”, é de se esperar que o destino deles não reverberem nas urnas. Então, ninguém faz nada, só promete meia dúzia de abobrinhas e faz cara de preocupado e de entendido.

Afinal, é de discursos secos e empoeirados que vive boa parte de nossa política municipal. (Sakamoto)

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