Deveria ser uma prática

Com um nó na garganta, lembrei-me de algo que já tinha discutido aqui e achei que valeria resgatar as ideias – ainda mais nesta época em que o medo da violência nos faz esquecer de nossa humanidade. Por trás de quem mata e quem morre, há outras pessoas que sofrem junto. Quando alguém é preso, geralmente não vai para a cadeia sozinho pagar pelo crime que cometeu. Vão também muitas mães, irmãs, esposas, filhas, avós que, religiosamente, fazem filas nas portas dos centros de detenção e presídios, desde as primeiras horas nos dias de visita.

Um lanche, um bolo de fubá, revistas, pilhas para o radinho, uma muda de roupa, pacotes de cigarros – que servem de moeda e diversão. No final, a pena de muitas dessas mulheres termina no dia em que seus filhos, maridos, pais, irmãos deixam a cadeia. Quando deixam. E quando não as deixam.

É triste que as mesmas filas não se formem do lado de fora dos presídios femininos. A quantidade de companheiros e familiares que vão visitar mulheres encarceradas são em número vergonhosamente menor, uma vez que a quantidade de mulheres nessa situação que são abandonadas é bem maior que a de homens. O padrão em nossa sociedade é que mulheres sejam educadas para acompanhar e servir. E homens para serem idiotas e egoístas.

É doloroso viver com uma parte de você em outro lugar. Uma perda que não se completa, sobre a qual não se chora o luto, mas se sente a dor da distância e da saudade. E isso vale para tanta coisa.

Incerteza, às vezes, é pior do que a morte, doença ruim que não é causada pelo ar ou água e sim pela distância. Enfim, tudo isso para dizer que senhoras de cabelos brancos não deveriam tomar chuva e passar frio para visitar seus filhos. (Sakamoto)

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