Os setentões


Gil: modo de compor singular

Não há na história da MPB um modo de compor tão singular, que intencionalmente reúna material expressional tão diverso e um sentido que busca nesse aparente mix potencializar a canção como meio — seja a política, a ciência ou simplesmente o amor como tomadas da consciência e da emoção. Samba, baião, rock não são gêneros nem espécies. São linguagem, que se pode usar em busca da expansão e da clareza do que se quer dizer, pensando que isso altera a compreensão de quem vai ouvir.

Gilberto Gil é um jogral, poeta que atravessa seu tempo cantando seu mundo — ou esse poeta que atravessa seu mundo para cantar seu tempo. Apanha aqui e ali, na sua travessia, materiais e notícias, o acontecimento, que o invade como a paixão, a dura conexão com as dores provocadas pelas perdas. E ouve outras vozes, do seu mundo mais próximo — o que ouviu nas feiras do interior brasileiro, capoeiras, Luiz Gonzaga, a bossa no cinema nacional e de Hollywood, tudo isso que caoticamente chegava da organização do mundo —, seja em língua lírica ou paródia.

Quem nos alimenta, diante do tempo rei, para digerir suas transferências de signos?

A disciplina do ogã do tempo. Que serve ao seu verdadeiro rei, querendo seja o guia das suas duras e alegres descobertas, pelo fazer contínuo, sem ignorar formas nem notícias. Tem que apagar a luz, tem que calar a voz, tem que ficar a sós, tem que encontrar a paz, tem que folgar os nós. Tem que comer o pão que o diabo amassou. O baião é pão. E o rock, seja brioche ou não, o homem amassa sua mistura de trigo e intriga para deixar que surja um novo alimento — e poesia e música continuem a fornecer matéria para os que continuam na estrada, mesmo que não encontrem nada do que pensavam encontrar.

Pudera todo homem compreender, quem dera, as metamorfoses que perambulam em torno de seu caminhar. Restituída a glória de como Deus mudando o curso da História, por alguma causa da mulher. Mu não é um.

Quando o poeta diz lata pode estar querendo dizer o incontível. Não se meta a exigir do poeta a meta, deixe a meta fora da disputa. Meta fora. Qual a meta do ambulante para ser um alvo? Ele pode estar querendo dizer o inatingível. Tudo nada cabe, metamorfose ou metáfora do que sempre Gil foi.

Multívoco, Gil se entregou ao tempo, às suas águas e a seus trovões. E no turbilhão das mudanças ele ficou sereno. Canta a ciência e a ignorância, a impossibilidade no que é possível, política de viver, viés da pequena política que a grande política da vida nos ensina a fazer.

As dificuldades de ser poeta ao lado de um músico como Gil são mínimas. Minha dificuldade maior seria colocar letras em suas músicas, coisa que nunca sucedeu. As dificuldades que poderiam nascer da falta de afinidade não existem. O Gil homem e artista não é preconceituoso, não tem microfascismos inseridos nas suas estruturas de aproximação e relacionamento, esse Gil que desde os anos 1960 acompanho com fases de aproximação e distanciamento. Os parceiros só existem quando não divergem em fundamentos da vida. Somos republicanos e democratas, desejamos que o mundo se torne melhor, e ainda temos resíduos socialistas e convicções humanistas plenas. Eu sou homem que ergue o machado de Xangô.

Nossas canções principais são "Viramundo", "Soy loco por ti, América", "Água de meninos" e "Miserere nobis"— que a convite seu escrevi para o disco "Tropicália". E nossa primeira parceria foi gravada por Nara Leão, chama-se "Ladainha". Fizemos canções para o filme de Walter Lima Jr. "Brasil Ano 2000". Gostamos de utopias. "Viramundo" é uma canção curta, sem dificuldades de composição para Gil, e seu nascedouro é o curta documental "Viramundo", de Geraldo Sarno, sobre mão de obra nordestina que migra para São Paulo.

"Água de meninos" é uma letra que narra o incêndio da feira que abastecia Salvador antes dos grandes supermercados e, segundo relatos, teria sido um incêndio criminoso para retirar os feirantes da área. Gil demonstra sua visão de composição de forma exuberante em "Água de meninos", construindo uma sinfonia, usando materiais e formas sonoras distintas para que a dinâmica e o significado ganhassem expressão máxima, conservando o lúdico e prazeroso das canções. Em "Soy loco por ti, América" ele foi buscar elementos nos materiais sonoros da tradição latino-americana para dar voz popular a um momento histórico, político e existencial para um dos mais significativos do continente sul-americano no século XX, que é o assassinato do guerrilheiro Che Guevara.

Meu trabalho com Gil é pequeno considerando-se a imensidão de sua obra, em que ele demonstra a multivocidade de sua forma de ver e fazer o mundo, sempre respondendo às situações com uma capacidade de atualizar e ultrapassar tudo que o instante oferece e significa. Gil não é baião, não é bossa, não é rock, é tudo isso e mais o que 70 vezes 70 lhe for trazido para refletir e interpretar. O mundo muda, e Gil estará sempre pongando e despongando desse maravilhoso bonde expresso 2222, que é o nosso tempo e a nossa História.

José Carlos Capinan é poeta e compositor.

Caetano: a inspiração vem de todos os lados

Parmênides diz que tudo está parado, Heráclito afirma que tudo está em permanente mutação e movimento, e Martin Heidegger diz que ambos têm razão, é tudo ao mesmo tempo. Caetano Veloso é assim, seus neurônios são untados de paixão humana, e ao mesmo tempo se conectam com todos os assuntos e mistérios, ciência, poesia, História, metafísica, geografia (humanizada por Milton Santos), músicas (todas elas, de todos os países e de todas as épocas). A inspiração de Caetano vem de todos os lados e se dirige para todos os cantos. Atuante, militante, político e engajado até as raízes do ser.

Ele e Gil, ao voltarem do exílio, foram fundamentais para a democratização, através dos shows irradiava-se a mensagem de que chegaria a democracia. O ápice disto foram os shows em Águas Claras, no interior de São Paulo, inclusive com a presença de João Gilberto.

Caetano logo em seu início de carreira (em seguida foi preso e exilado) afirma em uma de suas canções: "Eu organizo o movimento". Sim, ele organiza o movimento o tempo todo.

Sua obra é profética e exaltadora do Brasil Universal da Amálgama de todas as cores. Suas letras não são letras, são poesias com P maiúsculo. Seu filosofar é pensamento profundo, dia e noite, noite e dia.

Em todas as parcerias ele se transfigura 50% no parceiro, e os outros 50% são puro Caetano levando a canção para todas as dimensões.

Sua receptividade absoluta absorve as informações e imediatamente as devolve em forma de beleza de arte infinita, num átimo de instante.

Dou-lhe uma poesia e no dia seguinte já é música! Cantarolo um início de canção com letra pela metade e no dia seguinte ele já a completou, seguindo minha intenção melódica e ao mesmo tempo mudando-a, sutilmente, assim como acrescentando (letra-poesia) a ela, dando-lhe conclusão definitiva!!!!

Seus neurônios têm também olhar de cineasta, tudo também é vislumbrado como eterna paisagem mutante sempre inspirada no coração do povo brasileiro, numa paisagem de floresta amazônica, das praias da Bahia, da selva de São Paulo, dos braços abertos do Cristo Redentor e de todas as outras paisagens, e em tudo paira dominante a mensagem dos direitos humanos, incluindo a desobediência civil, tudo aquilo que veio do sermão da montanha de Jesus de Nazaré. Jesus de Nazaré e os tambores do candomblé!!!!

Jorge Mautner é escritor e compositor. 

Milton Nascimento: ele era um espanto

Tocava e cantava na noite de Minas e já tinha um pequeno e entusiasmado fã-clube. Além de ser um cara muito divertido que, acreditem, falava alegremente sobre tudo, quando pegava o violão e cantava a melhor música brasileira ou estrangeira, todos prendiam a respiração para ouvi-lo. Músico e cantor era pouco para ele.

Quando nos tornamos os maiores amigos do mundo, ele já trazia na bagagem algumas dezenas de canções, de ritmo, harmonia e melodia de se admirar. Olha que a gente se reunia para ouvir o que havia de mais sublime no jazz, na bossa e nas trilhas de filmes. E vínhamos de uma tradição musical colhida, na infância, nos altares e nas roças mineiras. Mas o que ele criava não tinha parâmetros, era diferente de tudo o que havíamos conhecido até então. Na realidade, ele era, para nós, um espanto.

Isto ficou evidente quando ele classificou três músicas no Festival Internacional da Canção de 1967 e, com o nome que achavam que não pegaria, revolucionou o mundo musical do Rio, do Brasil e dos EUA.

Com a voz, o violão e a canção, Milton calou primeiro e depois fez cantar o Maracanãzinho, os compositores e músicos cariocas de sua geração e de outras. De uma só penada conquistou o Brasil e o mundo. O talento renovador fez com que se cercasse do melhor que havia no universo musical do país.

Eu, amigo e parceiro, fui brindado, ao longo do tempo, com surpresas e surpresas. O que ele me mostrava, e eu gravava nos precários aparelhos que a tecnologia e o parco dinheiro me permitiam ter, era uma usina de sons inusuais, profundos, arrebatadores.

Modestamente fui, durante todos esses anos, colocando minhas palavras em suas obras-primas, e desse casamento, ficamos felizes com isso, surgiram canções que entraram com vigor na alma, no coração e na memória de um monte de brasileiros e estrangeiros.

O mundo e os compromissos fazem com que nós não nos encontremos como antigamente.

Continuamos juntos do jeito que a gente já cantou, mesmo apesar do tempo e da distância.

Cada palco que ele pisa recebe o nosso recado, fraterno.

E às vezes ele manda algo novo que criou, e eu continuo fascinado. E saio a buscar versos que combinem com sua criação. Do mesmo jeito que ele me maravilha com o domínio da voz, o que disse a ele depois do espetáculo recente que apresentou no Palácio das Artes, começo de uma temporada de comemoração que vai percorrer o Brasil.

O fato é que começamos nosso trabalho depois que nos fizemos amigos. E da amizade nasceu essa parceria que muito me orgulha e que continua firme 45 anos depois de nossa primeira filha, "Travessia".

Fernando Brant é compositor.


Paulinho da Viola: um ‘ourives antimidiático’

No princípio, era o choro, quase que apenas o choro. Explica-se: a casa, no bairro de Botafogo, era dominada pelo majestoso violão de Benedito Cesar, pai de Paulo Cesar Baptista de Faria, que futuramente ganharia nome artístico: Paulinho da Viola. Na casa viviam a avó, a mãe e o irmão caçula de Paulo Cesar, Chiquinho. Este aí ficava de lado com seu cavaquinho, ou então consertando rádios, vitrolas, gravadores e também instrumentos musicais. Era uma paixão adolescente que, acho eu, iria influenciar o irmão mais velho quando ele, já famoso, entulharia a garagem de sua casa na Barra com carcaças de carros antigos, ou se enfurnava numa imensa e bem fornida oficina de marcenaria, onde se transfigurava, entre outras coisas, em luthier.

O ambiente era dominado quase que apenas pelo choro. Mas convenhamos que era impossível não ouvir as rádios Nacional e Tupi nem ficar indiferente, quando se aproximava o carnaval, aos sons que vinham dos blocos de rua do bairro de Botafogo. Paulinho se escafedia para Jacarepaguá, onde ajudou a organizar o bloco Foliões da Anália Franco. Mas foi seu tio, Oscar Bigode, quem fez com que o jovem entrasse para a Portela, sua escola de coração. O mundo musical de Paulo Cesar ia ganhando esses contornos, abastecendo-se dessas informações, captando esses sinalizadores que incorporaria, depois, à sua carreira.

Tudo mudava quando Benedito Cesar tomava, coincidentemente, o rumo de Jacarepaguá — mas longe dos tamborins, ganzás e cuícas que fascinavam o filho mais velho. A casa-alvo da visita era enorme, circundada por um grande muro e cheia de árvores — e a mais frondosa e tonitruante tinha nome e sobrenome: Jacob Pick Bittencourt, o Jacob do Bandolim. E as rodas de choro rapidamente se formavam em torno do anfitrião. Quem passou pelos saraus do Jacob jamais esquecerá aquelas noites. Paulinho, inclusive.

E aí já estamos em meados da década de 1950.

"Olá, como vai?" "Eu vou bem, e você?" Poderia ter sido o diálogo quando fui pagar uma fatura no banco onde Paulinho dava expediente no balcão. Ele conta melhor esse nosso encontro do que eu. A partir dali, amigos e parceiros — e ele adentrando no "já vi tudo" onde eu morava no Beco do Rio, vizinho à Taberna da Glória e ao maestro Moacir Santos. Minha casa tinha visitantes ilustres, e um deles era Ismael Silva. Os violões clássicos adentravam no apartamentinho que tinha apenas sala, banheirinho e uma quitinete sem-vergonha, onde mal cabia uma geladeira. Reza a lenda que ali, naquele moquifo, fui seu primeiro parceiro. Que Paulinho relembre essa história.

Estamos já na década de 1960. Não, Paulinho ainda não se aventurara a ir profissionalmente ao encontro da música. Isto se deu quando o levei para o então recém-aberto Zicartola, na Rua da Carioca, e onde Cartola deu a ele seu primeiro cachê como músico. Definia-se, ali, o seu destino. E por lá ficou tocando ao lado de Zé Keti, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva, Clementina de Jesus, Cartola e os convidados ilustres que iam receber a Ordem da Cartola Dourada, artifício que criei de parceria com Zé Keti para impulsionar as rodas de samba que ele, Zé, criara.

E o que fazia o tímido Paulinho naquele palco diminuto? Acompanhava, simplesmente acompanhava ao violão. Até o descobrirem cantor e compositor levou um tempo.

Os blocos de rua que fizeram com que Paulinho cruzasse seu caminho com o grande Mauro Duarte (Mauro Bolacha), Zorba Devagar, depois Jorge Mexeu e Catoni, não o fizeram afastar-se do choro. E Zé Keti, quietinho, estava sempre por perto, ardilando coisas, botando lenha na fogueira. Era um agregador.

Em dezembro de 1964, vamos assestar os refletores do Teatro Jovem na figura extraordinária de Clementina de Jesus, numa série chamada "Menestrel", criada por mim — e que juntava um músico popular a um erudito. Acompanhando-a, quem? Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Benedito Cesar. Turíbio Santos abria o recital. Kleber Santos, dono do Teatro Jovem, me chama a atenção: "Você tem um show pronto em suas mãos." Nascia o "Rosa de Ouro", com Clementina, Aracy Cortes e os Cinco Crioulos: Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Anescarzinho do Salgueiro e Nelson Sargento, além de um palco despojado, onde projetávamos slides e as vozes de Almirante, Pixinguinha, Lúcio Rangel, Jota Efegê, Elizeth Cardoso e quem mais se possa imaginar. Enfim, a antítese de tudo o que estava na moda. Era uma estética que rádios e TVs ignoravam.

A carreira solo de Paulinho foi iniciada com um disco em que colocamos, com intensa alegria, a música de Valzinho — entre outros compositores. Valzinho passa ser um símbolo de tudo aquilo que não era midiático, sinônimo de total invisibilidade musical. Admirado por Radamés Gnattali e Tom Jobim, ainda assim vivia nas sombras.

Época de festivais, da bossa nova, da jovem guarda de Erasmo e Roberto, o choro praticamente declinando após a morte de Jacob em 13 de agosto de 1969. Falei em 69? Pois um ano depois nosso Paulinho ilumina a década de 1970 produzindo um LP arrebatador com a Velha Guarda de sua amada Portela, e de uma certa forma retomando a linha estética trazida pelos discos do "Rosa de Ouro" e pela discografia de Clementina, da qual participa ativamente.

Há que se revirar a ampulheta, deixar que a areia escorra e nos faça relembrar todas as vertentes que se atravessaram em sua vida, desde o choro tocado com solenidade em sua casa por Benedito Cesar e na de Jacob do Bandolim, e também as sonoridades dos blocos de Botafogo e Jacarepaguá, mais todas as informações trazidas por Valzinho e outros músicos iguais a ele e a Elton Medeiros, seu parceiro mais constante, fizeram com que fosse esculpido esse grande personagem que é Paulinho da Viola, preso à tradição do samba e ao mesmo tempo adentrando a vanguarda ao compor "Sinal fechado", repleto de signos e sinais metafóricos, para, em seguida, despir-se dessa ruptura e de novo vestir, com orgulho, os seus paramentos de sambista. 

Vejo-o assim: ourives e luthier a bordar no pentagrama melodias de uma aparente simplicidade. Ourives e luthier de versos desprovidos de arabescos, mas de poesia penetrante que jamais rasteja para a vulgaridade. Nenhuma informação desperdiçada, tudo reciclado em sua arte enxuta, antimidiática por natureza.

Hermínio Bello de Carvalho é poeta e compositor.

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