Sem expectativa e esperança, nós somos nulos.



Vivemos num mundo onde ultrapassar o caos das relações afetivas é quase sempre um plano meio utópico, "invencível". Não enquadrar-se no perfil frio, fútil, do lema da quantidade (quanto mais, melhor) é estar fora do "normal", do padrão de parceiro que foi estereotipado sem os elementos que outrora eram extremamente necessários para construir uma relação: companheirismo, amor, lealdade, fidelidade, tolerância, flexibilidade, respeito. 

Sou fruto dos anos oitenta, e embora as coisas já não fossem como no tempo dos meus avôs, ainda pude sonhar e desenhar a família que desde então desejei pra mim. 

Não apenas almejei, mas sempre escrevi e entendi que o amor é um dos principais combustíveis que nos leva a ser uma pessoa do bem, ele ajuda a ser e a ter um pouco mais de paciência, principalmente, a apaziguar as dores, os sustos e a firmar princípios que nos norteiam pelo resto da vida. 

Sem agressões, menosprezos ou qualque fator que te diminua. Será que sou uma "merda", um "nada"? É como um tiro latente de desencanto. Não tem outra, quando se tem amor, seja ele o tanto que for, a gente não se desvincula nem tão cedo do encantamento, do romantismo, do ideário do “conto de fadas” que é suspenso quando colocamos os pés no chão e aceitamos as pessoas como elas são. 

Arrancaram a pulso o direito de acreditarmos em príncipes, princesas, castelos, sorrisos, felicidade, amor, porque a vida tornou-se dura demais, e, sendo assim, desejar e sonhar com uma história de amor com final feliz tornou-se alienação. Creio que ao pensar em conto de fadas, todos imaginam a perfeição, o encaixe perfeito que não te gera outra coisa que não seja a plenitude de uma realização. 

Hoje, depois que a maturidade nos chega, não entendo mais assim. Os castelos transformaram-se em construções verticais, alguns parecem uma caixinha de fósforo, outros verdadeiros palácios suspensos, onde se abriga cada vez mais pessoas que mesmo um dia tendo sonhado com algum conto, hoje se depara com a realidade. Estes possuem coragem de construir passo a passo a preciosidade e a raridade de uma família que se une pela vontade de superar as dificuldades, e de mais à frente poder mostrar aos filhos como a vida não foi fácil, e mesmo que em algum momento tivessem enfraquecidos, juntos, tendo um ao outro conseguiram ultrapassar. 

O melhor conto de amor da contemporaneidade é a tolerância, a flexibilidade que as pessoas aprendem a ter para construir uma família. Não é preciso apenas coragem, mas disposição para aprender a aceitar o outro da maneira que ele é, até mesmo em dias de caverna interior, pois somente dessa forma, somos capazes de descobrir os limites. 

Continuo a acreditar que viver uma história de amor é não desistir fácil, é ter como exercício a lição de conquistar e ser melhor a cada dia, àquele que você escolheu para conviver e viver ao seu lado. 

Viver a vida ao lado, seja em par ou coletivamente não é uma lição fácil. Temos que aprender a nos darmos com as falhas. Infelizmente fomos doutrinados a não aceitar o lado ruim das coisas com paciência e esforço, para a conveniência é muito melhor o que nos corresponde, excluindo sem paciência o que não nos convém. 

Se tudo anda a correr certo demais, atentamos que há algo errado e o medo se instala se moldando de insegurança. Estamos catequizados de que é preciso não estar bem para estar tudo normal, e não é assim que as coisas devem acontecer. 

Dividir os meus sonhos me faz ter a segurança de um futuro melhor. Com este mundo torto, o que nos resta nessa vida é nos agarrarmos na certeza de termos alguém com quem a gente possa ter a leveza de ser o que é, a segurança de poder partilhar, ajudar e dividir o tempo que nos foi dado na terra. 

Felicidade é pedra rara, preciosa, quando a encontramos não há dinheiro no mundo que pague. Por isto, todos os dias, devemos polir com muito amor, sem que a gente esqueça que são nas nossas fragilidades que precisaremos ainda mais um do outro.  

As pessoas podem e devem continuar sendo um desafio à ciência. Somos seres capazes de nos reinventar a qualquer momento, a qualquer maneira. Basta querermos aprender, e esta é uma capacidade peculiar que todos nós temos, cada qual à sua maneira, à sua limitação. 

Não importa o quanto o outro desacredita na sua mudança, o que vale são as suas ações, o seu espírito de consciência que demanda maneiras novas de conduzir a vida, pois não basta apenas a teoria é preciso provar na prática.  

O fraco vai perceber que você não mudou no seu primeiro deslize, o forte e verdadeiro vai observar os pequenos detalhes da sua mudança e vai torcer por você, por sua força de vontade. 

Não acredito que as pessoas são seres estagnados, uma perda, uma ferida, uma cicatriz aberta, uma queda, um deslize, um erro pode muito bem nos ensinar uma maneira nova de sermos, e, com ela, aprendermos a estarmos. 

Somos dotados de sabedoria. A leitura das nossas fraquezas, dos nossos erros começa com um exercício reflexivo do não repetir, do querer ser melhor. Se eu possuo uma ferida, por melhor cicatrizada que ela esteja eu vou cuidar para que ela não doa de novo, para que não tombe pelo horizonte errado e me faça sentir aversão das minhas escolhas. 

Não há como quebrar o espírito, mas há como romper barreiras que nos impedem de sermos melhores, de nos aperfeiçoarmos na mesma espécie do eu que nasceu, cresceu e por mais tempo de vida que tenha, ainda pode mudar. 

Se aprendermos a lapidar a nossa vida com amor, bons pensamentos e perseverança, nenhuma outra maneira há de nos dizer o contrário. Se você não acredita que as pessoas mudam, comece a entender que elas se aperfeiçoam, e, isto já é um pequeno passo para uma mudança em você. 

Sem expectativa e esperança, nós somos nulos.

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