Plebiscito: quem ganha?





É pouco provável que haja surpresa no plebiscito deste domingo no Pará. A maioria dos 4,8 milhões de eleitores cadastrados em uma população de 7,6 milhões de habitantes (a 9ª maior do país) deverá votar contra a criação de dois novos Estados, Tapajós e Carajás.

Deverá ser mantido assim o atual território paraense, o 2º maior do Brasil, abaixo apenas do vizinho Amazonas. Somados, Pará e Amazonas representam um terço do espaço territorial brasileiro. Continuarão assim por pelo menos mais alguns anos, do tamanho de países. Como a própria Amazônia, que equivale à Europa Ocidental.

Uma possibilidade de mudança estava no marketing político, que agiria sobre o ânimo das pessoas. Para fazer o quase impossível, foi contratado o publicitário Duda Mendonça, notabilizado por contribuir para dar finalmente a Lula o mandato de presidente da república, depois de três eleições frustradas.

Duda chegou para trabalhar sem a pompa e a circunstância próprias da sua condição de celebridade – e das quais ele tanto gosta. Não era para menos. Contra a divisão do Pará havia uma realidade objetiva desfavorável: dois terços do colégio eleitoral paraense se concentram na região metropolitana da capital e em sua área de influência direta. Aí, a rejeição aos dois novos Estados é francamente majoritária.

Mesmo com a maciça adesão da população do oeste e do sul à bandeira do desmembramento, matematicamente ela não seria suficiente para evitar uma derrota certa. Era preciso convencer Belém e o seu entorno de que sairiam ganhando ao se incorporar ao retalhamento. Como já ocorrera com Goiás e Mato Grosso.

A campanha da divisão insistiu nessa tese, mas teve pouco efeito. O Pará remanescente ficaria com apenas 17% do seu território. Perderia não só o mito decorrente da sua grandeza física como o que, dentro dela, constitui as maiores riquezas já identificadas e em aproveitamento: as florestas, a oeste, e os minérios, ao sul.

Duda fez as malas e deixou a campanha uma semana antes do fim da sua missão. Sua saída foi logo interpretada como o reconhecimento da derrota pelos defensores do Pará de hoje. Os emancipacionistas tentaram justificar o fato alegando que Duda ficou até mais tempo do que estava previsto (20 dias acantonado em um hotel e não cinco). Também não conseguiram convencer.

Os militantes pró-Carajás acabaram por se tornar os alvos principais dos ataques dos que não querem mexer no perfil do Pará. Alguns dos principais líderes da campanha são fazendeiros, como o próprio Duda (tido na região como sócio de um dos filhos do ex-presidente Lula, que o teria convencido a participar da campanha).

Esses imigrantes formaram suas propriedades destruindo a antiga e exuberante floresta do Tocantins-Araguaia. Tornou-se um dos mais danosos processos de substituição de recursos naturais (desaparecendo o de maior valor, como as matas amazônicas, substituídos por bem de valor muito inferior, os pastos) em toda história da humanidade.

Foi assim que São Félix do Xingu, com vocação natural para a atividade florestal, se tornou o município com o maior rebanho bovino do Brasil (dois milhões de cabeças). Nem esse título, porém, lhe garante maiores ganhos: a qualidade da carne é inferior, não chegando aos mercados mais bem remunerados.

Descartado o efeito mágico do marketing, a última esperança dos emancipacionistas é que haja grande abstenção em Belém na votação de domingo. A quinta-feira foi feriado municipal na capital. Prevendo a fuga para um fim de semana prolongado, o governo do Estado e a prefeitura suspenderam o ponto facultativo nesta sexta-feira e colocaram a fiscalização para funcionar, cobrando o ponto dos funcionários.

A medida certamente freará um pouco o potencial de abstenção, mas terá também seus efeitos adversos: irritados, funcionários chegaram aos seus locais de trabalho anunciando que não iriam votar ou votariam pelos novos Estados, como protesto da ala dos abstêmios funcionais do serviço público (os frequentadores do cafezinho). Mas se trata de uma minoria extrema. É pouco provável que a abstenção tenha dimensão suficiente para contrabalançar a força do eleitorado de Belém e cercanias.

Em tal conjuntura, uma vitória dos defensores de Carajás e Tapajós seria um desses fenômenos inexplicáveis que às vezes ocorre na sociedade humana, mas muito raramente. O plebiscito se realiza, inovando em matéria de votação no Brasil (é o primeiro para definir a configuração territorial de um Estado membro da federação nacional), porque os paraenses não se acertaram sobre suas propostas e não evitaram a polarização.

A vitória dos que não querem essa mudança não significará, entretanto, que eles podem deitar em berço esplêndido com os louros da consagração. Os projetos de separação foram mal feitos, o processo para aprová-los foi viciado, os líderes do movimento não tinham credibilidade (e qual político a possui hoje?), faltou-lhes argumentos convincentes e uma história coerente com o que apregoavam, capaz de avalizar suas palavras, que ficaram no ar, como em toda propaganda eleitoral.

Mas se foi iludida pelos slogans e manipulada em sua boa fé, a população das duas áreas continua abandonada, isolada, maltratada e ignorada pela elite que, desde sempre, domina o poder central em Belém. Essa situação não poderá continuar. O Pará precisa ter a grandeza de visão e ação que o seu território lhe impõe. E que não tem até hoje.


1 Comentários em "Plebiscito: quem ganha?"

  1. Anônimo Falou:

    Espero que seja o povo!!

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