Dia do Escritor = Post especial do meu colaborador Walderi Gouveia

Escrevi na folha branca – luz – uma mariposa que voava no desespero, flutuou sua ingenuidade sobre os raios imaginários de mim; apaguei desesperado e o mais rápido que minha pressa pôde, pois tinha medo, um grande medo de ser dissecado na minha solidez. Ela em rápido desencontro bateu suas asas rumo ao infinito de seu par; fique solitário diante do branco vazio de minha vida medíocre; o poeta dentro desse monstro que vem e vai aos meus olhos disformes. 
 
Resolvi então escrever que - as águas do oceano fluem doces sobre o azul tempera – a mesa sob o papel começou a inundar, foi pelo chão, correu pelas minhas vestes; tive novamente temor das coisas; fobia; a água transparente e inodora tomava meu ser, afogava minhas dúvidas em pensamentos que nunca minha recatada moral teve sobre as mesmas coisas; as asas da mariposa. Enxuguei o rosto da vergonha; apaguei a frase e tudo voltou ao princípio. Calmaria. A noite veio chegando e o fim da tarde que eu não queria diante dos meus pesadelos passeou levemente em minha veia; respirei.
 
Tomei da carteira de cigarros um trago, li fervoroso Clarice, ouvi Chico e a noite em meu intimo amanheceu, não tão bela, mais simples, pois minha alma adoecia com dúvidas infinitas; perguntas, não fiz, apenas ouvi minha cegueira. A claridade em raios leves floreou minha casa, pude percorrer os corredores que anos não era habitado, estava incompleto e não sabia; não sorria para o mundo, era só e solitário; morador do nada, não conhecia os meandros do casarão de minha infância. 
 
Na escada tortuosa em que muitas vezes parei para olhar meu pai nos seus cinqüenta anos de idade, sereno sobre centenas de folhas de papel e informações geográficas, encontrei-me dúbio infante entre a chapada dos Guimarães e o sertão seco no nordeste brasileiro. Minha mãe limpava a poeira e as folhas no quintal, parecia a primeira vista que estava me advertindo; olhava, mas, não, engano, grande engano, eu não estive nunca ali no quintal; não vi minha mãe na sua solitária reclusão. Na janela entreaberta ela também fumava e olhava o horizonte distante; além do rio mar, a alma livre percorrendo uma cidade imensamente dela.

Não sei qual deles invadiu mais profundamente minha nódoa de vida.

A fumaça se dissipa; volto ao meu estado de letargia e insignificância; minha casa que era sobreposta em alicerces firmes, rompeu ao sonho torto. Estou despido, vulnerável; agora, pássaro e mar sou eu; mergulho; asfixiado, pois, não vôo. Quem de todos os medos? Qual de todas as verdades?

Por Walderi Gouveia.

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